terça-feira, 15 de novembro de 2016

     = MILAGRE ( OU NÃO ) DO MENINO DEUS =

       Manhã de dezembro! Para ser exato, dia vinte e quatro. Foi aí que tudo aconteceu.
        Neusinha, uma senhorita de quarenta e seis anos, acabava de esvaziar sua segunda garrafa de vodka do dia.
        Apesar da sua embriaguez, ela chora, não queria mais beber. Há tempos estava neste projeto de mudança de vida, mas sem sucesso.
        Sua velha mãe, no quarto, chorava ao ver a sua filha amada se definhando. No rosto o inchaço, que é algo peculiar aos alcoólatras inveterados. Mais uma noite a mãe teve que ajudá-la a se trocar para ir para cama, onde apagaria. Mas, naquela noite, ela não conseguiu dormir nem apagar. Pensava mil maneiras de se livrar daquele terrível pesadelo. Levantou-se bem cedinho, pegou papel e lápis, apesar do estado lastimável em que se encontrava, começou a rabiscar algumas palavras. Sua letra quase ilegível enchia a folha do seu bloco.
         _Bom dia, minha filha! Disse a mãe com certa tristeza.
         _Bom dia, mamãe! A sua benção!
         _ Filha, o que tanto você escreve neste papel?
         _Sabe mamãe, estou escrevendo uma carta para o menino Deus! É chegado o natal e quem sabe Ele possa me atender!
         _Filha, o que você está pedindo a Ele?
         _Quero realizar um sonho mamãe, estou pedindo para que Ele me ajude a parar de beber.
         _Que bom, minha filha! Você sabe que eu não sei escrever, mas escreva embaixo o meu bilhetinho para Ele. Pode fazer isso?
         _Claro, mamãe! Diga o que quer que eu escreva.
         Aquela boa senhora, com os olhos cheios de lágrimas, começou a ditar o seu pedido. Resumindo ela dizia: “Se o Senhor ajudar a minha filha eu poderei morrer em paz”.
         _Filha, assine e deixe que eu coloque a meu polegar aí junto à sua assinatura.
         E assim ficaram as duas transbordantes de felicidade.
          _Filha, como enviaremos esta carta?
          _Mãe, eu já pensei em tudo, vou subir lá no morro da torre de rádio, amarrarei a carta num balão e soltarei ao vento, com certeza ela irá até as mãos do Senhor.
         _Então filha, eu irei com você.
         E assim mãe e filha saíram numa caminhada árdua, mas que acreditavam seria o milagre que mudaria suas vidas. Chegaram com muita dificuldade ao topo. Neusinha embora muito mais jovem, não se agüentava de pé. Sua mãe pegou o balão, amarrou a carta nele, deu a mão a sua querida filha e fizeram a oração do Pai Nosso. Juntas, com os olhos embotados de lágrimas e esperança, soltaram o balão.
        Como por milagre, ele subiu verticalmente e com tanta rapidez, que se perdeu no azul do céu.
      As duas, cheias de esperança, voltaram felizes para casa. Neusinha, ao chegar, pegou todas as garrafas da prateleira e outras que estavam escondidas esvaziando-as dentro da pia. Mesmo com aquela obsessão forte e aquela compulsão toda, ela estava decidida a não mais fazer uso da bebida. Sentaram-se na sala, colocaram música e ficaram ali por horas, coisa que não acontecia há tempos.
        Alguém bateu a porta, Neusinha foi abrir e era um jovem senhor, cabelos grisalhos, voz forte, um rosto franco que trazia em seu sorriso a luz do amor.
         _Posso lhe ajudar? perguntou Neusinha.
         _Talvez. _Disse o homem. _Estou procurando Neusinha, ela mora aqui?
         _Sim, meu senhor, sou eu! Em que posso lhe ajudar?
         _É que estou muito engasgado com alguns problemas que aconteceram comigo, estou precisando desabafar. Pode ouvir-me?
         _Mas é claro! Entre, por favor! Como o senhor se chama?
         _Eu me chamo... Sou um alcoólico, estou paralisado há mais de vinte anos, mas queria contar para você um pouquinho da minha história, pode ser?
         _ Esteja à vontade! Mamãe, prepare um cafezinho para nós. O papo vai ser longo. Ele deve ser o enviado de Deus que veio dar resposta à nossa carta.
         O bom homem se identificou como um membro de “Alcoólicos Anônimos”. Contou toda a sua trajetória no alcoolismo e ouviu de Neusinha o seu desabafo. Riram muito de casos pitorescos e choraram as coisas tristes. Foi aí que tudo começou.
        Não sei a que nome dar a isto: milagre, determinação, coincidência, solidariedade, conscientização, amor... Acho que nada disso importa, o importante é que Neusinha hoje, está há dezenove anos sem beber. Sua mãe partiu como partem todas as mães que têm na consciência o sabor de um dever cumprido.
               Caros amigos, este é um caso verídico! São estes e tantos outros que assistimos e vêm nos mostrar que o milagre existe para aqueles que o buscam.
Feliz Natal a todos!

a hitória é rela, acontecido na cidade de Itaúna.

*Neusinha é um nome fictício.

Tonho Tavares