quarta-feira, 19 de agosto de 2015

       
  = Lições de Vida =.

          Eu sou uma pessoa que adora conversar. Não importa com quem, o fato é que, não consigo ficar calado. Interessante é que, às vezes, ouço narrativas que nunca esqueço. 
           Há cerca de onze anos atrás, eu estava na prefeitura de Divinópolis aguardando atendimento. Recordo-me bem da época, pois eu havia, naqueles dias, perdido o meu saudoso pai. Naquele momento, eu estava pensativo, quando veio uma senhora aparentando uns sessenta e cinco anos, de cor negra e sentou-se a meu lado. 
         Não demoramos a animar uma boa prosa. Falamos de assuntos diversos e me fascinei com o tamanho conhecimento daquela senhora. Depois de muito conversar, ela me narrou um caso de sua vida que me deixou encantado. 
          Disse-me que há muitos anos atrás, trabalhava de lavadeira para uma senhora de elevado poder aquisitivo e portadora de um preconceito, maior que seus bens multiplicados por mil. O seu marido, também negro, trabalhava na empresa do marido da dita cuja. Ela disse-me que, quando começou a trabalhar para esta senhora, não sabia do pavor que ela sentia por negros. 
          Certa manhã, ela estava com muita sede e veio até a cozinha. Pediu então à outra serviçal (branca) que a desse um pouco de água, quando ela entrou apenas no recinto. A patroa, vendo a lavadeira em sua cozinha, fez questão de mostrar o seu descontentamento. 
          Pouco tempo depois, veio a mesma serviçal, levando o recado da patroa: “Se você pretende continuar trabalhando aqui, não entre na casa. Peça à empregada que ela leva o que precisar.” 
           O preconceito daquela senhora chegava a doer. Precisando muito do serviço, ela continuava a trabalhar condignamente. Alguns anos depois, estava ela a lavar a roupa, quando a filha da patroa chegou aos gritos, dizendo que sua mãe estava morrendo e que precisava de ajuda.  
           A outra empregada não estava no momento e sobrou para nossa querida lavadeira. Sem saber o que fazer, ela dizia para a menina que não poderia entrar na casa, que sua mãe havia proibido, mas ela insistia, dizendo que a mãe estava com uma enorme hemorragia e estava desmaiada no chão de seu quarto. 
          Aquela boa senhora, obedecendo à patroa, correu nos vizinhos em busca de ajuda e não tardou muito a levá-la para o hospital.
          Seu estado de fraqueza era muito grande, estava morrendo. Ela precisava de sangue, e com urgência. Naquela época a dificuldade era encontrar sangue compatível. Foram feitos exames em todos os funcionários da empresa, mas ninguém tinha o sangue que servisse a ela. Foi até que, um dos peões (nome dado aos trabalhadores braçais da época), o único compatível, justamente o marido da lavadeira, se prontificou a doar. 
          O coração dela estava muito enfraquecido e não conseguia bombear o sangue. Os médicos ligaram (não seu direito o nome dado a este procedimento, mas era uma mangueirinha que ligava) a veia dele à dela diretamente e foi realizada a transfusão. O coração dele bombeava em auxílio ao dela. 
          Com certeza, isso salvou a vida daquela senhora. Ao voltar a si e, tomando consciência dos fatos, as lágrimas molharam o seu rosto. Bom, o tempo passou... Se servi de lição? É claro que sim! Eu particularmente, não tomo isso como um castigo, mas como uma bênção. 
            Ao término da conversa, não senti nenhuma mágoa naquela boa mulher. Não ficaram feridas, apenas cicatrizes. 
                               
Tonho Tavares