sexta-feira, 24 de abril de 2015

             MATURIDADE.

Eita Vida!
O que me fizestes?
Em meus olhos, há fuligem do tempo.
No corpo, as implacáveis marcas de passados momentos.
E na alma, muitas cicatrizes se salientam.

Eita Vida!
Por que me revelas?
Comi da estrada o pó
Senti minhas pernas, de tão cansadas, darem o nó.
Titubeei, arrastei, adormeci, desfaleci
mas nunca deixaste-me desistir.
Tu és sádica ou amiga?
Fazendo-me, a tudo, assistir.

Eita Vida!
Lembra-se, que eu quase desisti?
Ao meu lado de braços aberto, a morte.
Trazia em si o frescor das sombras das árvores
as flores em sua plenitude
o silêncio que embala a alma
e o fresco da paz.
A dúvida me fez companheira.
Aos berros mandaste-me prosseguir.

Eita Vida!
Jogaste em meus braços, amigos e amores.
Fizeste-me degustar os finos manjares dos sentimentos.
Fez-me crer em dias infindos de bons momentos.
Acreditei no poder de persuasão, pelas palavras e as flores
Mergulhei-me com força na doce ilusão.
Apresentaste outra vez a derrocada.
Ceifastes muitos amigos, dos amores, deixastes somente as dores.
O que fez comigo, velha companheira?

Eita o Eu desentendido!
Do agradecimento à Vida, amiga esquecida.
As fuligens são frutos dos meus descuidos
Meus olhares nem sempre eram retos
olhava um mundo torto.
No corpo as marcas doídas, sinais do crescimento.
Na alma cicatrizes, rasas ou profundas
São verdadeiros canions, montes e serras
Rasgando tal e qual a terra
Quando desbravado e vencido
É o lugar que voltamos e encantamos
São grandes artes do mistério da Vida.


Eita o  Eu perdido!
Esqueci que no pó e na estrada
sempre havia uma cachoeira e um regato
onde a sede era saciada.
Uma grama bem verdinha
as pernas na grama estendida
Dava-me força para continuar a jornada.
Não fostes Tu, sádica nem inimiga
O que tu queria
Era ensinar-me ao longo da minha Vida.

Eita Eu!
 Me vi no colo da morte
senti-me com muita sorte.
O sofrimento terminaria ali.
Buscaste-me no atravessar da fronteira
o Eu, sem eira e sem beira.
Covarde ou descrente?
Fez me acreditar que dali para frente
À passos bem mais lento
Experiente, quem sabe até um pouco competente?
Descobriria alguns de teus mistérios.

Eita Eu!
Obturado, cego e nunca mudo
Faltou-me entendimento, fui entregue nos braços de amigos e amores.
Mestres do bem.
Ensinava-me, do dia a dia, a lição.
Dos bons sentimentos, o manjar mais perfeito
fizeram-me degustar.
Ensinaram-me usar as doces palavras.
Mostraram-me, que das flores vem a força
para o amor cultivar.
E eu, louco, insano, egoísta, prepotente
não aceitava que aquela amada gente
para o Pai teriam que voltar!
Da bendita saudade
busquei apenas a infelicidade
para comigo vir morar.

Eita Eu!
Que sofri, alegrei, sorri e chorei.
Ao entardecer do meu tempo
Aprendi que tudo tem alento
A humildade e o amor são o sustento
Que a nossa estada aqui na terra , nos traz aperfeiçoamento.
Agora muito mais feliz, sei o que faço de ti, Vida minha...
De mãos dadas com os homens e com Deus vou adiante.
Agora eu, a ti, oh vida, entreguei-me, com amor, de corpo e alma
Embora em caminho bem menor a trilhar,  ate o resto de minha amiga Vida.


    TONHO TAVARES.