quarta-feira, 30 de abril de 2014



                          = O mais caro presente do mundo =
      
           Era junho de mil novecentos e noventa e oito e parece-me ter sido ontem. Até hoje me emociono quando lembro os fatos ocorridos.
           Numa fria manhã, apesar do sol lindo, um vento gelado vinha do sul. Depois de admirar aquele lindo amanhecer, sentei-me como de costume, para tomar o meu café. O telefone tocou insistentemente. Levantei-me e atendi. Uma voz extremamente grossa desejou-me um bom dia. Aquela voz me era familiar, volta e meia estávamos a nos falar. Ele era um senhor de meia idade, personalidade forte, mas que tinha um extremo amor para com os outros. Todas as vezes que me ligava eu sabia que alguém precisava de meus serviços. Seu nome, Dr. Rocarate, delegado de polícia, com uma linda e intensa ficha de bons serviços prestados. Há algum tempo trabalhávamos em parceria.
            _Meu querido amigo, bom dia! _disse ele. _Estamos com um ‘pepino’ aqui na delegacia e carecemos de uma mãozinha. Posso contar contigo?
            _ Mas é claro, doutor! _respondi orgulhoso. Em que posso lhe ser útil?
            _Tenho um jovem detido, vítima do álcool e quem sabe das drogas. A mãe dele está aqui intercedendo por ele, me dá pena o quanto ela está sofrendo. Vou liberá-los, mas já disse a eles, de antemão, que você irá visitá-los, que se ele não lhe esperar e ouvi-lo eu o recolherei novamente. Podemos contar com você, não é?
            _É claro, doutor! Dentro de duas horas estarei lá. 
            Meu amigo se despediu de mim e eu, como sempre, fui ao meu quarto, fiz a minha oração, peguei a ‘Catarina’ (uma velha kombi) e fui em busca do indivíduo que, segundo o delegado, estaria muito agressivo.
             Fui até a casa daquelas pessoas, meu coração se manteve o tempo todo em estado de alerta, mas minha fé era maior que qualquer outro sentimento. Ao chegar, fui recebido por uma idosa senhora, que tinha uma enorme ferida na perna. Ela era diabética, hipertensa e ainda estava totalmente desorientada com o que aconteceria com seu filho amado. Apresentei-me a ela, pedi que chamasse o rapaz e que nos deixasse a sós, pois aquele assunto só dizia respeito a nós dois. Ela, receosa quanto à agressividade do filho, ficou a espreita. Depois de algum tempo ele entrou na sala, onde eu me encontrava. Meu coração acelerou mais uma vez e, baixinho, eu recorria a Deus. 
              Ele, com os olhos muito vermelhos, dava para sentir a vontade que ele estava de me dar uns tapas mas, mesmo assim sentou-se, olhou fixamente para mim e disse: 
               _ Se o senhor veio aqui falar dos meus problemas e vícios, a porta é aquela. 
               Orei baixinho, pedi ao Misericordioso sabedoria, e prossegui:         
              _Não vim aqui criticá-lo e muito menos lhe dar lições de moral. Queria falar com você a respeito da vida, pode me ouvir? 
              _Seja breve, não tenho tempo a perder. 
              _ Peço a você que me ouça, ainda que seja por caridade, quero fazer o meu desabafo, pode ser? 
              _Fale logo! 
              _Com a força de Deus comecei a relatar a minha vida, os percalços que eu havia sofrido. Em dado momento pude observar que os olhos, outrora indefinidos, agora rolavam lágrimas. Ao ver que encontrara o caminho da alma daquele menino dócil, embrutecido pelas substâncias químicas, viajei até o seu mais íntimo sentimento. Aos poucos ele foi se soltando e começou a fazer-me confidências, e senti que o caminho estaria livre. O muro do orgulho, da prepotência e arrogância havia desabado. 
             Terminamos a nossa conversa em família, sentados em sua cozinha tomando suco de acerola e comendo biscoitos. Lágrimas de mãe e filho foram nossas companheiras na mesa.
             Sai dali bem diferente de quando cheguei. Abraços e promessas que ele me esperaria à noite para levá-lo onde seria o início de sua caminhada. 
             Fui para casa, meu coração estava cheinho de Deus, meus olhos teimavam em chorar. À noite voltei, ele estava muito bem vestido, barba feita. Estava muito bonito, pois era um jovem de apenas vinte e seis anos. Ao sair ouvi muitas vezes, “vão com Deus! Que Deus te pague! Que Ele te abençoe!” Ficamos juntos até quase meia noite. Ele queria saber tudo, prestava atenção nos mínimos detalhes. Dias e dias repetimos a mesma rotina.
            Os meses se passaram, ele continuava andando impecável, cheio de sonhos, como deveria acontecer com todos os seres humanos. Na véspera do natal daquele mesmo ano, voltei à sua casa para desejar felicitações àquela boa gente. Ao chegar, a mãe dele estava sentada no alpendre e cumprimentei-a. Ela, por causa do diabetes, estava enxergando pouco e por isso não me reconheceu. Fiquei ali a conversar quando ele saiu lá de dentro, todo sorridente e disse: 
             _Mãe, a senhora não está reconhecendo este homem? Foi ele quem salvou a minha vida. É o seu Antônio, mãe, meu padrinho. 
            Nesta hora, ela se levantou chorando, me abraçou, e me disse:   
            _Seu Antônio, este menino hoje é outra pessoa, o senhor imagina que ele fez um curso de enfermagem só para tratar da ferida que eu tinha a anos na perna? E veja por você mesmo, estou curada! Isto eu agradeço ao senhor. Sabe, seu Antônio, eu queria comprar um presente para o senhor mas não consegui, ganho um salário mínimo e as despesas são altas. 
            Eu fiquei muito emocionado com tantas coisas boas que haviam acarretado em uma simples atitude, disse a ela que não devia se preocupar o melhor presente que eu havia recebido era a recuperação de seu filho. Ficamos ali durante horas, tomamos bastante café.  A tarde já era chegada, eu me despedi, não faltou o choro de alegria, mas o melhor ainda estava por vir, quando eu cheguei à porta, aquela boa senhora disse: 
           _Filho, não vou deixar de dar ao Seu Antônio um presente, vá até o armário e pegue um pacotinho de açúcar para ele. 
           Meu Deus! Ao pegar aquele pacote de dois quilos de açúcar, sabendo da situação financeira daquela família, não consegui nem  agradecer, abracei-os e sai em disparada chorando pelas ruas. 
           Cheguei à empresa de um amigo, pedi que me emprestasse o seu escritório. Ele, preocupado com meu choro, acompanhou-me até aquele lugar reservado onde, curioso e preocupado, perguntou-me o que acontecera. Aos poucos, as palavras começaram a sair, contei a ele o ocorrido, mostrei o saquinho de açúcar e juntos choramos. Foi o presente mais caro do mundo, não existe dinheiro que pague tal emoção. 

Tonho Tavares